06 maio 2016


Afinal, gosto se discute? Por Gerson Luis Tromebetta

Um dos ditos mais recorrentes é que "questões de gosto não se discutem" ou, numa versão mais ampliada, "gostos, cores e amores não se discutem". Usamos tais expressões para justificar escolhas, evitar alguma polêmica cansativa ou, simplesmente, abreviar uma discussão que se anunciava estéril. A convicção de que gosto não obedece às regras da discussão e da busca de acordo se ampara na suposição de que o gosto é único, totalmente privado e cujo exercício é guiado por algo muito próprio do sujeito, distante de qualquer racionalização, numa instância em que ninguém "de fora" estaria autorizado  a intervir. Mas será que é bem assim? Vamos dar uma olhada mais cuidadosa. Em primeiro lugar, considerar o gosto como à prova de questionamento contradiz um outro tipo de prática cotidiana: a de diagnosticar o que é de bom ou mau gosto. Tomemos o caso das músicas de sucesso. Todas elas obedecem, mais ou menos, a um padrão já consolidado e bem conhecido: tempo de duração determinado, melodia simples e repetitiva e letra fácil de memorizar, abordando temas com os quais os individuos podem se identificar sem esforço. Gostar de uma música tem a ver mais com o reconhecimento desse padrão familiar do que propriamente com alguma qualidade objetiva da música. Isso significa que podemos alterar o gosto na medida em que nos habituamos com padrões diferentes. O que é preciso esclarecer é o que no gosto é discutível e modificável e o que, de fato, pertence ao terreno privado. O gosto é, acima de tudo uma capacidade de julgar: quanto mais aprimoramos o conhecimento sobre um determinado assunto mais nosso julgamento se torna criterioso e fundamentado. Ampliar o conhecimento enriquece a capacidade de reconhecer padrões e, por decorrência, de experimentar novos "gostos". Se isso é verdade, o gosto não é algo sobre o qual não se deve discutir ou algo sobre o qual discutir não leva a nada. É, sim, algo que pode ser educado e transformado.
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